Crônica de Vanessa Trajano: “Uma noite toda que poderia ter sido e que não foi”

copo whisk

Sofia desprendeu as pálpebras da retina logo cedo, mas não se sabia se realmente ela havia dormido; talvez descansasse o corpo no curso résteo da madrugada, de olhos bem cerrados, mas sem o privilégio de alcançar o sono. Sonolência tinha, e muita; sentia também os membros pesarem sobre o colchão e bastante cansaço, desses que adormecem a gente – só que dormir mesmo, não. Na verdade algo a consumia; o que mais lhe pesava não era nem tanto o corpo, mas sim a alma – tentando aqui exercer um pouco de profundidade no meu texto, já que ela julgara-se uma ribeira sem alma. Há muito perdera as estribeiras, principalmente quando o assunto era alcool. E ontem a noite fizera o favor de enlouquecer ainda mais seu feitio de próspera insanidade.
Tudo começou com um convite para sair, desinteressado em outros fins que não fossem beber. Achou bom ter encontrado um novo motivo, apesar de não precisar: todos os dias vinha bebendo e o surgimento daquele rapaz seria uma boa deixa. Beberia com ele; o gosto e a sensação da bebida seriam os mesmos, mas a companhia diferente. Aí estaria a graça da noite.
Estava acostumada a sair com muita gente – já havia largado aquela necessidade irrisória da adolescência de sair só para pegação, beijo na boca; sua juventude era muito mais madura e por conta disso suas saídas se resumiam no hábito de beber, sem pretensão alguma de todo o resto que poderia acontecer. Consequências a parte, noites regadas a vodka tendem até terem consequências a mais.
Nisso Wanderson concordou; era um adepto da vida noturna também, talvez por isso se davam tão bem. Eram amigos, tinham afinidades e ambos gostavam de beber – pra quê coincidência melhor? Nisso já é possível prever investida pelas consequências, o que não transfere nenhuma imprevisibilidade a minha narrativa, ao passo que não lhe tira o crédito: bom saber o que está porvir, e eles sabiam.
Só o que não sabiam é que o imprevisível se daria por conta dos excessos de Sofia: cigarros e copos de cerveja davam um teor importante pra noite, impossível ficar sem. Então em repetidas vezes, apostando na velha e já conhecida trama do exagero imbatível, ela foi enganada pela sua grande paixão: a embriaguez lhe puxou o tapete.
Não foi porque sentisse medo de si: ela não sabia quem era sem estar com um copo na mão. Medo ela tinha de ser sóbria, porque aí sim não se reconheceria. Pelo menos era o que lhe passava em pensamento até as ditas consequências previstas fossem arrastadas pelo imprevisível de uma alma conturbada jorrada em meio mundo de alcool.
Sofia gostava de dançar, embora não soubesse, não tivesse remolejo. Morena sim, era; parda como uma verdadeira mestiça brasileira, mas não possuía o dom de conter o samba na veia como proclamavam por aí. Então não arriscava. Como não, até compreendia seu companheiro trocá-la por alguns instantes. Ela não prendia ninguém, também gostava de voar e odiava quando alguém fazia menção de cortar-lhe as asas.
E como não dançava bem, beijava bem, e foi beijada para compensar a falta de bom passo. Por longo tempo; tempo suficiente para um flagra. Logo agora, que o beijo havia ficado tão bom, imaginou as consequências vindo rápido. Mas o André tinha que aparecer justo no beijo! O descontrole começou aí: triplicou as doses de cachaça, perdeu a autoconfiança, começou a falar alto para chamar atenção – tudo porque o bendito estava lá. Não precisava de tanto, ele já tinha visto, não havia como voltar atrás, qualquer coisa que fizesse seria tolice. Só que era justamente isso: o André foi a sua pior tolice, aquele homem que lhe transformava numa menina desmiolada só pelo fato de estar por perto.
O que faria? Não sabia; sabia beber, e isso fez mais enquanto pôde. Então foi comprar mais cerveja. Quando retornou, deu de cara com o seu recém beijado papeando com uma garota, que ao seu ver não competia consigo. Afeou a menina de todo jeito – não era feia, nós sabemos. Aí como não soubesse aonde enfiar a cara, voltou para onde estava e ficou sozinha, esperando a menina sair de perto do Wanderson, mas ela não desgrudava. A pior parte foi quando percebeu estar sendo observada pelo André, ele a vendo estar de escanteio por quem acabara de beijar. O descontrole, que já havia tomado conta, deu ares de substância existencial: foi lá tirá-lo dos braços da menina, de maneira escandalosa, e digamos com certa baixeza.
Não sabe se sentiu ciumes do Wanderson ou queria que o André sentisse ciumes de si, e para esta segunda opção era necessário que o Wanderson não inventasse uma asneira daquela – homem doido ou cafajeste mulher assim como a Sofia teimava em cismar com eles. E Wanderson lhe surgiu como uma ironia: o beijo de um para limpar a cafajestice do outro.
E quanto ao ciúme, acredito que tenha sido uma junção dos dois. E se atropelou por conta desse ciúme duplo, e era impossível medir qual deles lhe feria mais. E quando deu por si já havia falando um monte para o Wanderson, coisas imperdoáveis, até uma infantilidade a respeito de um dito ingresso arranjado com muito custo por ela – desdobrara até os seguranças para que ele entrasse de bermuda e chinela!
Depois, era tarde demais. Ela sozinha, no carro, procurando um meio de se lembrar porque as consequências previstas não haviam acontecido como ela esperava e constatou errado, e feio. Culpou a bebida, o Wanderson, o André… Mas aí veio o seu eu se esmagar de tal forma que sentiu a necessidade de procurá-lo. Não o André, o Wanderson. Sim, na ausência do Wanderson percebeu que o André já não importava tanto – algo bem maluco para entender, só que melhor ainda era não ser preciso entender. E foi. Cheia de esperança de ser desculpada, de ser minimamente compreendida.
Mas foi de encontro logo com a mágoa, o orgulho afetado, a fúria deprendida dentro do peito. Quem sabe seria melhor esperar a noite passar, tudo ia embora com a noite, nada fica. Porém foi logo; não queria esperar e carregar consigo aquela culpa pra cama naquela noite. Então estavam lá: frente a frente de novo; ele meio sonolento, e ela na expectativa de um perdão. Seriamente, ele só a disse:
– Você precisa de ajuda.
A voz ficou pendurada na cabeça de Sofia o resto da noite, mesmo que ele não estivesse mais lá. Na verdade não sabia se era a voz dele ou se era a sua própria, mas sabia que a voz tinha dimensão de não apagar-se, num teor turbulento. O que não deixou ela apagar-se para dormir, e até a aurora pediu para que descansasse, mas ela não descansou. Precisava de ajuda, e a ressaca naquele momento não lhe ajudava em nada. Afinal de contas, ressaca moral só serve para relembrar dos valores que não cumprimos.

Vanessa Teodoro Trajano

 

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