Crônica de Wellington Soares: Tavares, O Pegador

mulher-ciumenta

Mulher que desse bola ao Tavares, dificilmente escapava de ir para a cama com ele. Era questão de, no máximo, uma semana. Bom de queixo como ele, ainda estava para nascer. Imagine se fosse bonito. Mas exercia sobre as mulheres, sabe Deus como, um fascínio impressionante. Talvez pela fama de ser um grande pegador, dos raros que conseguem dar três sem tirar de dentro. Apesar dos olhos atentos de Ambrosina, ele sempre encontrava uma boa desculpa para burlar a severa vigilância da patroa. Os amigos só não entendiam sua moleza em relação à gostosona da vizinha, uma picoense de parar o trânsito, que faltava lhe esfregar a calcinha na cara.

– Vai nos dizer que broxou de vez?

– Não é nada disso que vocês estão pensando.

– Quem sabe não passou, sem nos avisar, para o outro time.

– Vontade não falta, mas…

– Amarelou, confessa, diante de uma caçadora igual a você.

– Estou pra ver uma mulher segurar o meu tesão.

– Desembucha então, camarada, o que está acontecendo.

– A xerife lá de casa foi taxativa: com essa sirigaita, é olho da rua.

Ambrosina já percebera o assanhamento da vizinha para o seu homem, embora fizesse pose de esposa segura e indiferente. No íntimo, entretanto, sentia desejo de beber o sangue daquela depravada, termo como a chamava diariamente. Seu ódio recaia todo sobre o Tavares que, além de ser impedido de olhar em sua direção, vivia com os braços roxos de tomar beliscões.

– A culpa é toda sua – esbravejou a mulher -, essa tara em não resistir a um rabo de saia.

– Longe de ser um santo, mas sequer a cumprimento.

– Além de safado, um cínico de marca maior.

– Nunca fui tão sincero na vida, meu amor, pode acreditar.

– Com as outras, até relevei as pontas, agora com essa loira oxigenada…

– Seja mais clara.

– Expulso você de casa e tomo seu dinheiro todo.

Em mais de vinte anos de casamento, Tavares jamais vira a mulher tão furiosa e determinada. Mesmo a vizinha sendo a oitava maravilha do planeta, achava que não valia à pena tamanho sacrifício. Já fizera muita loucura em troca de alguns momentos de prazer, mas por em risco a manutenção da família ia uma enorme distância. Só não contava ele, pelo menos nesse caso, com as reviravoltas que o mundo costuma dar. Ambrosina tomara conhecimento de um fuxico, por amigas de confiança, que colocava sob suspeição a masculinidade do próprio marido. Segundo as más línguas, a infâmia partira justamente da dita cuja. Boquiaberto, Tavares ouvia a mulher com total espanto e, sem demonstrar, feliz como nunca.

– Quero que mostre à vagabunda quem é boiola nesta casa.

– Hum!

– Deixe a perereca dela, se possível, em carne viva.

– O quê?

– Faça por trás, também, sem pena nem dó.

– Como?

– As sacanagens todas que você gosta de fazer e outras mais.

– Anrã.

– Embora não tenha negado fogo até o presente momento…

– Hein?

– Toma aqui uns comprimidos de Viagra e manda o sarrafo nessa égua.

– Estou liberado mesmo?

– Apenas nesse caso.

– Como assim?

– Logo, meu caro, trate de aproveitar.

– Ah!

– E só me apareça em casa com o serviço bem feito.

Uma semana depois, Tavares retorna com um sorriso maroto e o peito estufado de orgulho. Ao contrário das outras vezes, é recebido com beijos e de forma carinhosa. Quem não teve a mesma receptividade foi a coitada da vizinha que, além de ter sua porta pichada com o termo rapariga, ainda levou uma tremenda surra de Ambrosina. Sob o aplauso e a admiração pública, nosso casal reinventou a relação e nunca desfrutou de tanta felicidade.

 

 

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